Consumidor descartável

Item semi-novo: aparelho celular Nokia 2720 – GSM

Linha do tempo: assim que conseguir desbloqueá-lo

Segurem-se onde puderem, amigos. Esta semana, as placas tectônicas ficarão especialmente irritadiças, as calotas polares derreterão de uma vez, o dia virará noite, a temperatura média subirá dez graus no hemisfério norte e cairá outros dez graus no sul até que o eixo da Terra seja totalmente invertido. Tudo porque, contrariando todas as previsões, dos maias à Susan Miller, eu, finalmente, troquei de celular.

Uma nova era... para mim, claro

Se acompanha este blog, deve se lembrar do meu pré-histórico aparelho, provavelmente, criado pelo próprio Alexander Graham Bell. Apesar de ser ridicularizado e repulsivamente desprezado por meus amigos durante anos, ele nunca me faltou. Ainda funciona muito bem, apesar do histórico impressionante de quedas. Mesmo assim, recebeu aposentadoria compulsória. Minha mãe comprou um novo e fez questão de me dar o velho, pois até ela já está anos-luz adiante de mim tecnologicamente.

Liguei para a empresa de telefonia, a mesma que passou os últimos anos me implorando para mudar de plano, e acho que ouvi os funcionários estourando espumantes para celebrar um momento tão histórico. Era como se o Muro de Berlim caísse de novo. Até que enfim, eu aceitava alguma mudança nos serviços prestados. Estaria evoluindo como consumidor e abrindo as portas, quem sabe, para a entrada de novos produtos?

Fiquei pensando o quão à parte sou mantido da sociedade por não ser uma pessoa que consome com a freqüência que o mercado exige. Meu relacionamento com a operadora de TV a cabo ilustra bem isso. A minha televisão ainda é daquelas que têm bunda e não pretendo trocá-la tão cedo. Mesmo assim, eles correm atrás de mim, para me convencer a fazer parte de uma seita de fanáticos por TV, internet e telefone. Após muito penarem, os caras me obrigaram a trocar para um codificador digital sob ameaças de cortar meu sinal. Agora reclamo em dobro, pois, com minha televisão antiquada, a imagem fica tão insípida quanto antes e, de vez em quando, a transmissão sofre soluços.

Na verdade, eu considero tanto o serviço da minha operadora quanto o da concorrência igualmente medíocres. Afinal, o conteúdo da maioria dos canais é ruim e eles ainda nos enchem de intervalos abusivos, programação repetitiva, dublagem dispensável e uma série de defeitos que expõe a indiferença deles com o espectador. E, por mais que façam propaganda comparando a adesão a um plano mais caro à compreensão do Nirvana, sigo por anos preso ao item mais barato do cardápio.

Sou o sujeito sem automóvel e sem iPhone. Aquele que se diverte tentando confundir o Facebook bloqueando TODOS os anúncios e classifiando-os como “desinteressante”. O maldito herége que ousa passar por um free-shop de aeroporto sem comprar uma barrinha de Troblerone sequer. Como ainda me deixam circular livremente entre os cidadãos de verdade?

Neste fim de ano, o governo abriu mão dos impostos de certos produtos para forçar uma baixa de preços e movimentar a economia. Desculpe, mas não farei minha parte. Simplesmente, porque, no momento, estou satisfeito com as tralhas que possuo e tenho outras prioridades. Lembro quando a gente comprava um equipamento e ele durava décadas. Sou do tempo em que jogar eletrônico em perfeito estado no lixo só porque apareceu um modelo mais novo no mercado era algo só visto em reportagens sobre o consumismo no Japão. Desde que os computadores invadiram de vez o dia-a-dia de todos a palavra de ordem é atualizar. E quem não segue essa linha de raciocínio, torna-se um consumidor descartável.

Vejo vocês no lixo, então.

Destino: cavalo dado não se olha os dentes. Vamos colocá-lo em uso

Sobre Alex Xavier

Alex Xavier vive em São Paulo, “está” jornalista e tem medo de se tornar um daqueles velhos que juntam lixo em casa até os vizinhos chamarem a polícia
Esta entrada foi publicada em Casa, Família e marcada com a tag , , , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta para Consumidor descartável

  1. Carla disse:

    Entendo como se sente, pois apesar de possuir um iPhone e gostar bastante de tecnologia, não tenho uma televisão em casa. Imagina a comoção pública quando comentam o capítulo da novela de ontem e eu respondo: não assisto à novela, não tenho nem televisão. De certa forma me divirto com as reações. Já vi olhares de piedade e alguns quase me deram um trocado para eu comprar uma TV. Mas ainda resisto forte, já me canso o suficiente de ficar conectada o dia inteiro e acredito que com tanta coisa mais divertida a fazer a gente se perde demais diante da caixa mágica!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s