Contagem regressiva

Item 0354: uma embalagem (vazia) de Cosmos

Linha do tempo: esquecido no passado

No que diz respeito à pontualidade, sou o brasileiro mais suíço que existe. Eu odeio chegar tarde a um compromisso e deixar alguém esperando me estressa. Mas moro em um país no qual as pessoas vêem as horas com o mínimo de precisão. Só aqui um encontro é marcado em largos intervalos (“entre 12h e 12h30”). E, na prática, essa faixa fica ainda maior (“só atrasei meia horinha”). Resultado: quase sempre, represento o cara que espera.

Em Salamanca, na Espanha, os jovens costumam se encontrar antes da balada debajo del reloj. Ou seja, sob a torre do relógio da Plaza Mayor. Quando morei lá, eu chegava dez minutos antes. Na hora, apareciam os alemães, seguidos dos japoneses. Um pouco depois, escandinavos e britânicos. Americanos e canadenses surgiam dez minutos atrasados. Latinos, da Europa e da América, desculpavam-se pela espera de quinze minutos. E, na maior cara-de-pau, os tupiniquins davam as caras até uma hora após o combinado.

Cosmos: espaço e tempo

Admito que sempre fui obcecado demais com tempo. É interessante ver como me relaciono com meu primo Dadu, que acha que um dia tem 48 horas e vive em outro compasso. Para nós, acertar um simples cineminha requer uma delicada negociação. Ele já calcula que vai perder os comerciais e trailers e eu quero chegar uma hora antes da sessão. Mas melhorei um pouco. Antes, me sentia nu sem relógio. Dos vários que usei, só restou a lata de um Cosmos que ganhei uma vez do meu pai (talvez em referência à série científica Cosmos, com o astrônomo Carl Segan, que assistíamos juntos na minha infância). Agora vejo as horas no celular.

Quando eu era criança, os ponteiros se arrastavam. Eu não precisava me afobar. Na minha cabeça, tinha todo o tempo do mundo. Acordava cedo, jogava capoeira, estudava na escolinha, almoçava, assistia ao fim do Balão Mágico, tirava uma siesta, jogava futebol de botão, lia gibis, comprava balas na padaria, jogava taco na rua até o cair da tarde… e não conseguia pensar em mais nada para fazer. O dia era sempre maior que minha agenda.

Na adolescência, minha ansiedade para entrar na maioridade fazia os dias serem sofrivelmente demorados. Eu perdi muito tempo torcendo para o tempo passar logo. E, de repente, tinha 18 anos e tudo andava depressa demais. Tanta coisa aconteceu nos meus “anos 20″ que minha vida parece ter passado inteira em um instante.

Algo curioso aconteceu quando alcancei o 3.0. Pensava que tudo ficaria ainda mais veloz. Mas, ao contrário, desacelerei. Estou menos apressado, como se tivesse me dado conta de que não estava em uma desembestada corrida contra o tempo. Onde eu queria chegar com tanta pressa afinal? Até publicar este post, já atravessei 13.289 dias. Segundo a ONU, o homem brasileiro vive, em media, 69 anos (um pouco menos, na verdade). Imagino que eu vá passar esta marca, mas vamos considerar que seja uma ciência exata. Isso me daria 11.914 dias.

Acho que dá tempo de sobra. Seja lá qual for meu plano.

***

PONTEIROS

Uma confissão: não me dou bem com ponteiros. Já tive vários relógios, mas todos digitais. Sou dessas pessoas que não conseguem ler as horas com facilidade ao ver para onde apontam as duas varetinhas. Eu preciso parar e pensar. “hmmm… ponteiro grande no 3… ponteiro pequeno no 9… cinco vezes nove… hmmm”. Pois é, nada prático. Há designs que facilitam ainda menos a minha vida. Às vezes, não dá nem para saber qual o ponteiro maior. Outras, tiram os números! Lembro quando fui a um oculista, na adolescência, e ele fez um teste de visão com reloginhos em vez de letras ou números. Era para eu falar que horas marcavam. Demorava tanto para concluir minhas contas que o doutor quase me receitou lentes garrafais achando que eu não enchergava nada na minha frente.

Destino: virou um cofrinho de moedas velhas (explico no próximo post)

Sobre Alex Xavier

Alex Xavier vive em São Paulo, “está” jornalista e tem medo de se tornar um daqueles velhos que juntam lixo em casa até os vizinhos chamarem a polícia
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13 respostas para Contagem regressiva

  1. Tati disse:

    Muito bom o post. Mas se quiser aprender como chegar atrasado a um compromisso, te ensino… Brincadeirinha. Sei que ando sempre atrasada, mas eu odeio deixar alguém esperando e detesto esperar também. Agora, desacelarar aos 30 soa como se você sentisse que já tem uns 60… ok, parei.

  2. Alex Xavier disse:

    Rá! Nada, aos 60, não desacelero mais. Vou querer apenas estacionar

  3. Michelle disse:

    Detesto atraso! Odeio esperar por alguém e quero ter um treco qndo todo mundo chega atrasado e acha super normal. Mas…com uma irmã e amigos como os meus ou vc se adapta ou se mata. =)

  4. Paula Bogar Sylvestre disse:

    Aaaaaadorei!!!! Uma pessoa que respeita relógios!!!!! Amei! Agora entendo por que ficamos sempre eu e você esperando a Adri e Denise no Veloso!!!

  5. Priscila disse:

    e os cachorros?

  6. Alex Silva disse:

    Pontualidade é comigo mesmo; não gosto de ficar esperando, por isso sempre chego na hora marcada. Rs. — Minha vida é uma correria, estou sempre fazendo tudo ao mesmo tempo. Chego a pensar que daria um ótimo “The Flash”. hahahah

    Um grande abraço, xará!

  7. Mariana disse:

    Eu gosto da sua pontualidade, Alex. Bastante! Pq sei que eu qualquer festa vc vai ser um dos primeiros a chegar…. e como vc é de casa, posso pedir pra me ajudar com as últimas coisas, pq é claro que eu vou estar atrasada – sempre!
    bjins

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