Prova de obstáculos

Item emprestado: um par de muletas

Linha do tempo: só esta semana

Pé imobilizado... mas nem tanto

Ironias do destino: logo após publicar o post anterior, sobre caminhadas, torci o tornozelo e fui obrigado a imobilizar o pé. Até ontem, estava de muletas ou dando pulinhos em uma perna só. Eu deveria ter sossegado o facho em casa, aproveitando que me dei folga por uma semana (é bom ser meu próprio chefe). Mas não consegui ficar parado. Nos últimos dias, tropecei em desníveis, trombei em postes e caí em buracos em agradáveis passeios pelas caóticas ruas de São Paulo.

Uma hora ou outra, todos nós seremos pessoas com mobilidade reduzida. Seja porque engessamos o pé, estamos carregando malas ou, simplesmente, envelhecemos e não temos mais a agilidade da juventude. Acessibilidade deveria ser uma questão de toda a sociedade e não apenas de deficientes físicos. Tomei consciência disso em 2003, quando voltei ao Brasil após um ano sabático na Europa e tive dificuldade de encontrar emprego em redações (muita gente sendo demitida na época e eu querendo entrar…).

Fui atuar como jornalista, a convite da socióloga Marta Gil, na Rede SACI, um projeto da Universidade de São Paulo que trabalha com divulgação de informações sobre deficiência e acessibilidade. Além de atualizar o portal com notícias sobre o tema, a gente produzia reportagens e entrevistas e participava de encontros e congressos. O mais bacana é que a página investe em inclusão e possui ferramentas para que todos a acessem, mesmo deficientes visuais ou auditivos.

Eu adorava o ambiente de lá, bem jovial. Foi uma oportunidade de experimentar a vida no campus. Já que não passei na Fuvest quando prestei e a Fiam, onde cursei, tinha um prédio com jeitão de colégio, aqueles meses saciaram minha curiosidade acadêmica. Principalmente, no que diz respeito à alimentação, almoçando no bandeijão, no dogão ou na lanchonete do teatro, nas imediações da Praça do Relógio, onde ficava o nosso escritório. Também foi lá que conheci histórias de pessoas que não colocavam sua deficiência como desculpa para abandonar seus sonhos.

Não sou uma pessoa otimista. E até gosto disso, pois não conto com a vitória antes da hora. Sou bastante racional e tenho consciência de tudo que pode dar errado. Sinto até medo de falhar. Agora, nada disso me impede de tentar. Acho que aprendi a não desistir fácil diante de dificuldades. Às vezes, surpreendo-me com a forma como enfrento algumas situações bastante complicadas mantendo o bom humor. E aquela temporada “uspiana” de 2003 tem certo mérito nisso, pois me ensinou a não ver um obstáculo maior do que ele é. Hoje, não é qualquer torção que me derruba.

***

Assento preferencial

Na ausência de deficientes físicos, idosos, gestantes e pessoas com criança de colo, aqueles assentos preferenciais em ônibus e metrô podem ser usados por qualquer um. Mesmo assim, fujo deles. Não apenas por respeito, mas para não me estressar. Primeiro, porque, em São Paulo, nenhum transporte público fica tão vazio por muito tempo e logo eu teria de dar lugar a alguém. Segundo, porque tem velhinhas que não assumem a idade e se ofendem quando um jovem oferece o lugar. Inédito foi quando experimentei uma troca de papéis. Antes de operar o estômago, fiz um exame horrível (acho que se chama manometria ou PHmetria), que consistia em enfiar um catéter pelo meu nariz, passando pelo esôfago, para medir como minha digestão agia. Um dia inteiro com aquilo. Fui de metrô e, na volta, com aquela aparelhagem nada discreta, chamei a atenção. Tanto que uma senhorinha se levantou do assento preferencial para que eu sentasse.

__ Calma, minha senhora – respondi – Não estou morrendo. Este é apenas o meu iPod.

Destino: voltam hoje mesmo para as mãos do dono

Sobre Alex Xavier

Alex Xavier vive em São Paulo, “está” jornalista e tem medo de se tornar um daqueles velhos que juntam lixo em casa até os vizinhos chamarem a polícia
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6 respostas para Prova de obstáculos

  1. Camille disse:

    Ótimo post! Gostei.

  2. Adorei a crônica! Olha o que escrevi sobre você depois de ler, mas já estou começando a ficar um pouco arrependida… rsrsrs

    http://leandramigottocerteza.blogspot.com/2011/09/sem-torcer-o-nariz.html

    Ah… este blog é acessível virtualmente para pessoas com deficiência visual e cegueira? Se não for eu te mato! kkkkk. Precisa de amigos para testar? Eu indico.

  3. katia disse:

    Post lindo! foto maravilhosa! vc é perfeito!…Melhoras!!!

  4. Alex Silva disse:

    É, xará… só conseguimos enxergar mesmo a falta de acessibilidade das nossas cidades, quando passamos por uma dessa sua situação. :P

  5. Marta Gil disse:

    Alex,

    Adorei esse post!! E que coisa boa revisitar teu blog!

    Agora vc realmente se tornou um Saci honorário, com direito a carteirinha :-)

    E também fiquei emocionada, confesso – que legal saber que sua temporada na SACI trouxe um aprendizado, além de boas lembranças – prá todos nós. Foi muito gostoso estar com vc na equipe.

    Beijo,
    Marta Gil

  6. Mariana disse:

    Pode acrescentar mães/pais com carrinhos de bebês. Tem lugar que é impossível e vc tem de ir pela rua, no meio dos carros. É muito perigoso…
    bjins

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