Item 0657: ‘2001 – Uma Odisséia no Espaço’… em quadrinhos!
Linha do tempo: a alvorada do homem
Em “A era da inocência“, falei da minha passagem por uma fantástica escolinha de bairro, onde aprendi a acreditar no meu potencial e a desenvolver meus talentos sonhando alto. Pois, logo depois, atravessei a Idade Média. Fiz o ginasial no Anglo Latino, um colégio retrógado no qual o plano educacional era colocar os alunos em uma competição digna de um Big Brother, obrigando todos a seguirem uma linha de pensamento única e a eliminar os “desajustados”. Anos de trevas, cuja maior perda foi sentida no âmbito das artes.
Fiquei lá de 1986 a 1989. Entre uma aula e outra, queriam que eu aceitasse que os negros não sofreram violência durante o período de escravidão no Brasil e que as ditaduras militares da América Latina levaram avanço social aos povos da região. Mas nenhuma tentativa de lobotomia daquele manicômio vizinho ao Parque da Aclimação me afetou tanto quanto descobrir que não tinha o direito de me expressar nem mesmo nas aulas de Educação Artística.
Voltemos no tempo. Na infância, eu amava desenhar. Não era um gênio precoce, mas levava jeito. Havia aprendido a ler com histórias em quadrinhos (pricipalmente Turma da Mônica, Disney, Peanuts, Asterix e Tin-Tin) e era através da “arte seqüencial”, como chamam hoje, que eu deixava minhas ideias fluírem. Como em um dos itens mais raros deste inventário, considerado perdido por duas décadas e encontrado recentemente nas inúmeras caixas que meu pai guardava na casa dele: uma versão cartunesca do clássico ‘2001 – Uma Odisséia no Espaço’ (‘2001: A Space Odissey’, EUA, 1968, de Stanley Kubrick).
Na verdade, não achei o original, mas uma fotocópia. Eu tinha ficado maravilhado com o filme e o revi diversas vezes antes de completar 8 anos. Não que eu entendesse alguma coisa, mas, visualmente, ele aguçava bastante a minha criatividade. A ponto de começar a rabiscá-lo de memória. Traços de criança, bem toscos, com os primatas da abertura mais parecendo o E.T., do Spielberg. Mesmo assim, gosto de ver que eu manjava da linguagem dos quadrinhos. Posso dizer que é meu trabalho mais autêntico até hoje.
Nos anos seguintes, meu hobby seria fazer gibis. Fosse na escola, com meu colega Carlos (não é à toa que se tornou designer gráfico), ou com meu primo Ricardo (hoje, arquiteto), eu passava horas bolando tramas, criando capas e desenhando as histórias. Costumava me colocar nelas, assim como meus amigos, sempre em fantásticas aventuras – para a garotada que só viu na Sessão da Tarde, lembre-se: assisti a ‘Os Goonies’ (‘The Goonies’, EUA, 1985, de Richard Donner) no cinema. Perdi quase todos esses fanzines. Triste…
Eu desenhava em qualquer folha de papel em branco que visse na minha frente. Vendo isso, minhas professoras me estimularam e até incluíram meus gibis e os do Carlos em uma feirinha de artes que a escola organizou. Dava muito gosto ver as pessoas parando para ler o que a gente tinha passado horas fazendo. Ainda pequeno, fiz um curso precário de animação também, mais por diversão. Mas eu realmente achava que ia crescer e me tornar um novo Angeli ou Laerte.
Pois toda essa autoconfiança se perdeu em uma aula de Educação Artística da 5ª ou 6ª série, quando a professora viu que, além dos desenhos que ela queria, eu havia feito outros no meu caderno de folhas brancas A4. Depois de me chamar de ridículo na frente de todos e dizer para a classe que meus desenhos eram horríveis, a mulher me fez apagar tudo que não fosse o exercício dela… em umas cem folhas.
Eu deveria ter sido mais forte. Pré-adolescente, deixei aquilo mexer comigo. De uma hora para outra, fiquei muito exigente comigo mesmo. Era um perfeccionista com traços imperfeitos. Aos poucos, deixei o lápis de lado. Quando eu tinha uns 16 anos, motivado pelo meu primo, entrei com ele em um workshop de HQ no Senac. Foi divertido, participei de um fanzine e até um trabalho meu como co-autor foi selecionado em um tradicional concurso da antiga Livraria Belas Artes, na Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Mas minha motivação não era a mesma.
De vez em quando, uma sobra de papel em branco de um bloco de entrevistas me tenta. Rabisco ali algo, como eu fazia nos cadernos escolares. O estilo ainda está lá. Do mesmo modo que ele não piorou, também não evoluiu. Parou no tempo para lembrar minha covardia, aceitando tão fácil o que uma professora limitada impôs como errado. Fico incomodado. No fim, até a própria instituição sucumbiu à própria empáfia. Mal administrado, o Anglo Latino fechou as portas em 2006, deixando órfã toda uma geração de reacionários. Para mim, já foi tarde.
Destino: galeria principal do Museu Alex Xavier de Histórias Ordinárias, atrás de um vidro blindado e com sensor de movimento

Que professora horrível. Devíamos casá-la com o meu professor da terceira série — que implicava comigo não lembro porquê e me colocava de castigo na ala dos meninos (sim, a sala era dividida por gênero) — e mandá-los pra Guantánamo.
Pois é. Defendo a classe dos professores pois minha avó era (e os alunos lembram dela com carinho até hoje) e também conheci professores inspiradores. Mas o que fazem estrago, são realmente contundentes
Jesus, Alex! Que horror essa mulher! Dá um google no nome dela e me conta o que ela tá fazendo hoje? Que bitch!!
E vc desenhava muito bem!!
Não joga fora os desenhos e suas HQs não… Eu guardaria
Nem lembro do nome dela, Mari. Mas não deve ter ido muito longe
Eu curtia muito desenhar. Na verdade, não foi só por causa dessa mulher que eu parei, claro. Também deveria ter me dedicado mais
Alex…sei o que é isso!!! tenho pesadelos com números até hoje!(por causa de uma criatura destas!!)
mas… como vc mesmo disse é melhor lembrarmos dos bons professores, inspiradores,verdadeiros mestres!mas aproveita este reencontro e recomeça de onde parou!
e os cães?!?
BJKS!!!
Começar de onde parei… Hoje, só se for escrevendo histórias para outro desenhar, o que pode ser interessante
Quanto aos cães, continuo com uns 20. Estou atrás agora de lugar para deixá-los (alguns, pelo menos) e eu me responsabilizaria pela ração e custo com veterinário. Sabe, preciso me livrar do aluguel da chácara, que está comendo meu orçamento.
Se souber de alguém, pode me avisar
beijos