Item 0497: diploma de participação em torneio de atletismo
Linha do tempo: 21 de outubro de 1984
Às vezes, fico impressionado comigo mesmo. Não o Alex de hoje, que não surpreende mais ninguém. Mas o Alex moleque, voltando mais de 25 anos no passado. Lembro-me dele como se fosse outra pessoa. Principalmente ao ver seu talento atlético. Quando penso no que já fiz, tenho a impressão de que não fui eu. Ou era eu em um universo paralelo.
Tenho em mãos meu diploma de participação no 1º Torneio Infantil de Corrida Sears, de 1984 (assinado pelo Joaquim Cruz, que, meses antes, havia ganhado o ouro nos 800 metros na Olimpíada de Los Angeles). Se você é de São Paulo e tem mais de trinta anos, conheceu aquele prédio caixote da Rua 13 de Maio com a Avenida Paulista (agora a sede do shopping Pátio Paulista) como a filial nacional da loja de departamentos norte-americana Sears. Naquele ano, eles promoveram uma competição de atletismo para a molecada, no Centro Olímpico do Ibirapuera.
Eu corria. E rápido. Não largava bem e sempre precisava me recuperar, passando todo mundo nos metros finais. Mas e daí? O jamaicano Usain Bolt ganhou todas as medalhas dele saindo atrás na Olimpíada da China. No dia da prova, meu pai gravou minha performance em vídeo. Deu para ver que fui o último a sair no tiro de 100 metros e tive que me desdobrar para ser o primeiro a cruzar a chegada. Esse outro Alex era veloz e perseverante.
E dedicado. Eu fazia ginástica olímpica. Era o primeiro a chegar ao treino na quadra da escolinha Tio Patinhas. Nem o professor Paulo, nosso instrutor, aparecia antes de mim. Também saía por último, ajudando-o a guardar os equipamentos. Sofria nos treinos para ganhar elasticidade. Praticava dezenas de vezes o salto sobre o cavalo e os giros na barra. Errava seguidamente e vivia com dores, mas só parava quando acertava. Cheguei a me arrebentar algumas vezes. Esse outro Alex era incansável.
E também corajoso. A ponto de ser considerado inconseqüente. O professor Paulo também era nosso mestre de capoeira. Cheguei a cordão dourado. No meio de uma roda, eu dava cambalhotas no ar para frente e para trás. E era capaz de algo que me dói o pescoço só de me lembrar: dar dois passos na parede e virar um mortal completo de costas (o que o pessoal do parkour chama agora de backflip). Esse outro Alex era confiante.
Jogava futebol e basquete sempre, nadava como um peixe, escalava montanhas, fazia trilhas… Então, em algum momento, o universo se dividiu em dois e este Alex aqui adotou a preguiça muscular. Esta versão cansada minha precisou se reinventar para completar uma São Silvestre, quase se afogou ao tentar voltar à natação e tremeu quando subiu a Pedra do Baú de novo, depois de 20 anos sem ir para lá – quando garoto, ia sempre com meu pai e não temia a escalada nem um pouco. Sou mais lento, desmotivado e medroso. Queria dar uma olhada naquele eu da realidade paralela e ver quantas medalhas ele conquistou enquanto fiquei estirado no sofá
Destino: vou guardar para devolver um dia ao Alex de verdade.
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O tempo não perdoa
No último dia 28 de abril, celebrei 36 anos com uma festa. Nunca me preocupei muito com idade, mas este número me deixou assustado. Bem nesta semana, muita gente divulgou no Facebook um ensaio longevo do fotógrafo Nicholas Nixon, que passou 36 anos clicando quatro irmãs (a mulher dele era a mais velha, de 25 anos em 1975) para mostrar a passagem do tempo (veja em vídeo). Com este blog egocêntrico, tento me convencer de que estou aproveitando tudo que a vida me oferece (de bom e de ruim). Nem me questiono se tomei as decisões corretas. O ponto é se tomei todas as decisões que precisava ou se estou deixando pendências demais por aí.

Seu post merece uma medalha, Alex ;}
haha Obrigado, Gica
Estava precisando disso
beijos
Poxa, Aqui, vc continua sendo um medalhista, mas agora em outras modalidades ; )
E adorei o filme das irmãs, lindo!
Beijos
O tempo passa, né?
Eu tb fazia ginástica olímpica, natação, patinava, andava de bicicleta. Agora me canso só de pensar em pegar o metrô.
O país perde muitos talentos para a preguiça hehe
Adoro passar por aqui!
acho que todos temos vários “eus” perdidos ao longo do tempo…às vezes nem sabemos quem somos…não é mesmo???
e aí alguma novidade com os cães?
se cuida!
BJKS!!!
Oi, Katia
Este “eu” ainda está com 24 cães nas mãos. Abaixou o número, mas ainda são muitos
Beijos
Ô, Alex,
É parte da vida olhar para o passado e nos enxergarmos criaturas gloriosas.
Penso muito o que teria acontecido se.
Mas as nossas decisões (e, às vezes, fatores que estão fora do nosso controle) acabam nos levando para lugares diferentes – nem piores, nem melhores, apenas diferentes.
Ah, sim. Eu nem sou desses que fica lamentando passado. Mesmo porque, aposto que se tivesse seguido outro caminho, poderia perder também as coisas boas que me aconteceram (até as ruins que serviram de aprendixado) e estaria curioso para saber como seria este universo aqui
Amo esse blog. Queria ter tido essa ideia: inventariar as minhas coisas inúteis. E que, ironia, são as que fazem de nós o que somos (no caso desse post, o que poderíamos ter sido).
Obrigado, Julia
estou meio sem tempo para o blog, mas prometo voltar em breve
Obrigada pelo link, moço =D
Obrigado você, moça