Itens sonoros: dezenas de gravações telefônicas em fitas K-7
Linha do tempo: do menino ao homem
Entre as tralhas que peguei da casa do meu pai quando ele faleceu, de valor puramente afetivo, estão dezenas de fitas K-7 com gravações telefônicas. Ele parecia o protagonista de ‘A Conversação’ (‘The Conversation’, 1974, de Francis Ford Coppola). Se o telefone tocava, apertava REC em um velho gravador da Panasonic. Não deve ter guardado todas, mas elas são como álbuns fotográficos, registrando para sempre um momento único. Escutei algumas e pude constatar que, definitivamente, odeio a minha voz.
É comum as pessoas se decepcionarem com o som que suas próprias cordas vocais emitem. Sempre que decupo uma entrevista que fiz usando gravador, tenho vontade de adiantar as minhas perguntas e ouvir apenas as respostas dos entrevistados. Incomodo-me, particularmente, com a gagueira mental, mais do que a verbal (também presente, aliás). É quando penso no que dizer mas não fecho a boca, prolongando a palavra anterior (“fui praaaaa…”) ou preenchendo os espaços em branco com grunhidos (“errrr”). Português com sotaque viking.
Nas fitas, pesquei outra curiosidade. Herdei do meu pai a minha voz adulta. Quando ouvi pela primeira vez um papo nosso de quando eu era criança, achei que ele fosse eu. Na verdade, eu era o pivete que soava como um dos sobrinhos do Pato Donald. Lembro que minha voz engrossou rápido. Aos 14 anos, eu era um pinguelão de 1,80 metro com barba só até as bochechas e uma voz de pinguço. Até entendo as meninas não me darem bola.
Na minha secretária eletrônica, inspirei-me no James Earl Jones ao gravar a mensagem. Ao cantar, escondo o desafino também com uma pretensa voz de barítono.
NOTA DO AUTOR: Em respeito à Humanidade, quase nunca canto. Mas o álcool deixa qualquer um mais suscetível a devaneios, como achar que consegue cantar “My Way” em um videokê depois de uma festa de casamento.
Gosto, porém, de usar o vozeirão quando preciso bancar o maluco. Principalmente, ao falar com prestadores de serviço incompetentes. Por exemplo, brigar com a Net quando o técnico não aparece na hora que prometeu ou com a Telefônica porque os lesados desligaram o telefone da casa da minha mãe em vez do meu (as duas linhas usavam o mesmo CPF). Eu sei qual oitava minha voz atinge quando estou com raiva e uso isso muito bem.
Quando comecei a ser freelancer e precisei abrir empresa, o Banco do Brasil levou uma eternidade para me entregar o cartão da conta jurídica. Após me enrolarem três vezes, fui à agência pronto para montar o maior barraco. Tudo muito bem calculado, diga-se. Assim que o atendente soltou o papinho de praxe, encorporei o Nicolas Cage e parei o banco. Um segurança chegou a se aproximar com a mão no coldre. Foi eu dar um tapa na plaqueta com o nome do funcionário e ela voar da mesa e o gerente veio. Em cinco minutos, meu cartão, milagrosamente, apareceu. Tem gente que só funciona no grito.
Destino: muita terapia ainda, para ouvir tudo aquilo.

-Detesto o Banco do Brasil.
-Às vezes acho que a minha voz parece com a da protagonista de The Nanny, mas como isso nunca rendeu “bullying” na escola, deve ser só minha impressão.
-Um Nicolas Cage surtado? Hahaha, nem imagino!
haha Já falei com você pessoalmente. Sua voz não parece a da Nanny
Do Nicolas Cage, não viu o vídeo que eu linkei no texto? O cara é um excelente inspiração para uma surtada
Na verdade, quis dizer que não conseguia imaginar você surtado como o Nicolas Cage. Alguém mais consegue surtar como ele? hahaha
Como ele é difícil. Nem o Jack Nicholson jovem
Nossa, num tem coisa pior que ouvir as perguntas no gravador… uma vez, levei uma cantada de um inglês no fim de uma entrevista por telefone, que dizia que minha voz era extremely sexy… dei risada, óbvio, aí fui ouvir a porcaria da fita e percebi que era a tal gagueira mental… por telefone parece gemido!!! socorro!!!
Vai ver foi o gemido que mexeu com o gringo hehe