Na passarela

Itens pendurados: roupas que preciso passar adiante

Linha do tempo: assim que deixei as fraldas

A lenda diz que, entre a conjunção de Vênus com a Lua (amanhã, à 0:39) e a passagem do cometa Elenin a apenas 66,3 milhões de quilômetros do Sol (em 4 de setembro), os nascidos de Touro com influência de Escorpião se sentirão compelidos a dar uma geral no guarda-roupa. Costumo entrar em loja de roupas muito raramente. Mas, de tempos em tempos, um dos três fatores seguintes me motivam a renovar o visual:

1 – A roupa encolheu (forma auto-indulgente de dizer “ganhei uma barriguinha”);

2 – A ocasião exige (viagem para lugar frio, emprego novo, ser padrinho de casamento…);

3 – O prazo de validade expirou (até o mendigo da esquina está melhor vestido).

"Odeio todas as minhas roupas"

Há um outro fator, mais embaraçoso, pois mexe um pouco com minha masculinidade: a manifestação do meu lado feminino. É quando me surpreendo pensando: “odeio todas as minhas roupas”. Não acontece sempre, devo dizer. Deve, porém, ser uma forma que a Mãe Natureza, sábia como é, encontrou para proteger os homens heterossexuais solteiros de sua própria falta de estilo.

Minha mãe comprava minhas roupas quando eu era criança e isso funcionava muito bem. Pré-adolescente, descobri duas peças que marcariam meu ritual de passagem: o jeans e a camisa de flanela tipo lenhador canadense. Veja bem, isso foi muito antes de Mudhoney e Pearl Jam. O jeans era para parecer menos menininho do que com calça de moletom. E a camisa era porque blusas de lã me faziam espirrar. Quando os anos 90 chegaram, as pessoas me perguntavam se eu era grunge. E eu retrucava nervoso: “mas eu sempre me vesti assim!”

No colégio, veio a fase surfe e skate. Pergunte se eu pego onda ou já soube dar um simples ollie. Claro que não. Mas andava com surfistas e skatistas e saía por aí com bermuda da Urgh e boné da Quiksilver. Mais tarde, acho que peguei aversão a estampados e comecei a preferir camisetas lisas, bem sóbrias. E ficou assim até hoje.

Algumas estampas permaneceram, por motivos variados. É como uma tatuagem. Precisa ter muito a ver comigo.

Para testar a reação das pessoas em festas. Sempre aparece alguém perguntando se eu acho o Iggy Pop um idiota. Adoro explicar que se trata do primeiro álbum solo dele, de 1977

Uniforme oficial de botequeiro internacional

Uniforme oficial de botequeiro nacional

Já usei muito, como lembrança da temporada em Nova York. Hoje, velhinha, uso mais para dormir mesmo

Estou com quase 36 anos. Sinto que é hora de passar por outra revolução, parar de me vestir como universitário e seguir uma tendência um pouco mais madura e respeitável, ainda que cool o bastante para não me sentir um velho. Mais ou menos como os caras se vestem nos filmes britânicos de Woody Allen.

Enfim, em breve estarei em uma loja tentando bater meu recorde de permanência. Em geral, chego, escolho uma camisa padrão, pego outras cinco do mesmo modelo em cores diferentes e, antes que o vendedor me pergunte se pode me ajudar, ele já está recebendo sua comissão. Às vezes, uma amiga de confiança me acompanha, com a tarefa de não me deixar comprar como se estivesse escolhendo banana na feira. Elas têm meu aval para sugerir aquisições e me fazer provar as opções. Porque meu lado feminino só vai até a percepção de que algo não vai bem com o sujeito do espelho.

***

Apenas uma dica…

Por que os homens odeiam acompanhar mulheres (esposas ou, simplesmente, amigas) a lojas de roupas? Porque eles sentem que só estão atrapalhando. É verdade! Nem é por causa das sacolas que elas nos fazem carregar – inconscientemente, isso até massageia nosso ego. Mas não há uma área na qual a gente possa se prostrar para esperá-las. Em todo canto que paramos, há um vestidinho que uma das moçoilas vai querer ver. Uma vez, em Nova York, fui o carregador de compras de uma namorada. Ela disse que ia experimentar uma blusa e levou outras cinco para o provador. Fiquei lá, tentando não ser obstáculo para as demais devoradoras de cartões de crédito que se acotovelavam entre os cabides. Até uma madame se aproximar de mim e segurar minha camisa.

-       Oh, desculpe! – ela exclamou, assustada, ao me olhar nos olhos – Achei que você fosse um manequim.

Por isso, proponho aos comerciantes a criação do maridródomo, um espaço em que os machos possam se sentir mais à vontade. De preferência, tomando uma cerveja, jogando sinuca e vendo futebol na TV. É isso! Eu iria ao pub da C&A. E aposto que a casa venderia muito mais sem chatos como eu pressionando as companheiras para dar o fora dali.

Destino: próximo pacotão da Campanha do Agasalho

Sobre Alex Xavier

Alex Xavier vive em São Paulo, “está” jornalista e tem medo de se tornar um daqueles velhos que juntam lixo em casa até os vizinhos chamarem a polícia
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10 respostas para Na passarela

  1. Bianca Osses disse:

    Hahahaha, adorei! Apesar de ser mulher, acredite, eu odeio shopping e lojas, acredite, apesar de sre bemmmm difícil, mas quem compra as minhas roupas até hj é minha mãe. Eu dou o dinheiro e ela compra, simples assim. E compra da minha filha tb, pq realmente eu não tenho saco/estilo/criatividade e sei lá mais o quê. E o maridródomo é um local sugerido há anos pelo meu marido, mas no caso dele, ele chamava de ‘canto do buana’, existente, acredite, em muitas lojas infantis.
    Boa sorte no novo look!

  2. Magá Telles disse:

    Ontem estava em uma loja e ouvi uma mulher reclamando “um absurdo levar um animal tão grande pro provador”… achei que se tratava de um namorado gordo, mas dei uma espiada e vi um golden retriver, sentado com olhar de saco cheio, esperando sua dona experimentar “só um vestido”.

  3. Adoro seus posts Alex…Se vier pelas minhas bandas fazer comprinhas, eu te ajudo!

  4. Rita disse:

    Ah, vá… eu também adoraria me vestir como a Scarlett Johansson nesse filme… ó, investe nas camisas brancas e tênis legais. é pra onde olha o nosso lado feminino.

  5. Acho que vc deve guardar só essa do Iggy Pop – rendem boas histórias. Eu mesma já presenciei uma (numa festa do Ramiro, lembra?).
    Eu acho que vc nao vai ficar bem de camisa…. não combina. O Má pelo menos não fica. wuahahah!
    Compra umas camisetas bacanas na threadless.com….
    Nossa, eu dou muito palpite! Sorry :)
    Bem, to esperando pelo próximo post, hahaha!
    bjins

    • Alex Xavier disse:

      Ah, deixa eu ficar com as outras (a do Temple Bar até que está muito bem conservada)
      Acabo de ver o site que você indicou. Bacanas, mas tenho medo de ficar como os caras das fotos hehe
      Beijos

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