Biblioteca decorativa

Itens empilhados: livros

Linha do tempo: provavelmente, jamais

Eu deveria ler mais, sei bem. Sou jornalista, escrevo um blog, sou melhor com a palavra escrita do que com a falada. Teria obrigação de devorar um título atrás do outro. Em vez disso, costumo produzir esculturas. Empilho livros na promessa de que, um dia, eles serão devidamente lidos. E, de repente, a cabeceira da cama ganha um novo objeto de decoração.

Escultura de livros

Em geral, não entro em uma livraria atrás de um livro específico. Quase sempre é para fazer hora. Estou esperando para ver um filme no cinema e passo o tempo buscando algo que nem sei o que é nas estantes. Algo me chama a atenção, folheio, sinto-me instigado e, por um momento, acho que aquelas páginas trazem as respostas para todas as minhas dúvidas. De repente, estou no caixa decidindo se passo o cartão de crédito ou de débito.

Aparentemente, cinema é meu tema favorito para comprar e encostar. Tenho biografias de cineastas, coletâneas de críticas, estudos sobre linguagem, livros puramente técnicos sobre roteiro, fotografia, edição. Em 1999, quando fiz um workshop na New York Film Academy, saí de uma Barnes & Noble com uma sacola cheia. Quase paguei excesso de bagagem na volta ao Brasil. Pergunte se eu li algum até o fim. Começava um, ficava mais interessado pelo tema de outro, deixava todos pela metade. As páginas ainda estão marcadas, paradas no tempo, esperançosas de que ainda irei retomar a partir dali.

Sou daqueles que adquirem uma coleção de clássicos em promoção de jornal só para me obrigar a ficar em dia com a literatura mundial. Depois me arrependo porque acabo prestando mais atenção aos erros da tradução mequetrefe do que na obra em si. Não me entenda mal. Eu leio. Mas a pilha dos “já lidos” é sempre menor que a dos “a ler”. Quando passei por Dublin, achei-me um idiota por não ter lido ‘Ulisses’, de James Joyce, para seguir os personagens pela cidade. Depois de passar pela Turquia, interessei-me por ‘Istambul’, do Nobel Orhan Pamuk. Abandonei depois de um terço de leitura.

Fui educado com cinema. Sempre faço referências a cenas de filmes em uma conversa de bar. Dos livros, tenho dificuldade em lembrar autores ou citações. Sinto saudade de quando era moleque e conseguia me sentir personagem de um ’20 Mil Léguas Submarinas’ ou um ‘Os Meninos da Rua Paulo’. Passava um dia lendo algum da coleção Vagalume, da série E Agora Você Decide ou das aventuras de Sherlock Holmes. Mas, pensando bem, em todos esses casos eu lia imaginando a história como um filme. Acho que preciso aceitar minhas limitações de homem puramente visual.

***

Todo mundo tem bloqueio com algum clássico da literatura. O meu é ‘Cem Anos de Solidão’, de Gabriel García Márquez. Eu sei, eu sei… É uma obra obrigatória para muita gente, algo que vai mudar minha forma de ver tudo ao meu redor e tal. Já ouvi tudo isso de amigos. Mas simplesmente não consigo passar da metade (se é que um dia fui tão longe). Já tentei três vezes (uma em espanhol, para ver se o problema era a tradução). Não consigo me envolver e encosto. Falha de caráter? Que seja. Se eu aprendi a conviver com isso, melhor vocês fazerem o mesmo.

Destino: Ou faço uma doação ou junto todos em uma instalação na próxima Bienal de Arte com o título “não toque”.

Sobre Alex Xavier

Alex Xavier vive em São Paulo, “está” jornalista e tem medo de se tornar um daqueles velhos que juntam lixo em casa até os vizinhos chamarem a polícia
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15 respostas para Biblioteca decorativa

  1. lola disse:

    ai alex, q sincero esse post hehe. quem e que tem coragem de admitir, ne? mas aposto q todo mundo faz isso. comeca um, para, comeca outro, para, ai le mais um pouco do outro…tambem ficava com vontade de rir daquele povo do estadao q levava uns puta livro grosso pra ler no busao da santa cruz. e….quantas paginas eles conseguiam ler naquele trajeto? valia mesmo a pena carregar 20 quilos de papel a mais por dia? e, sei la, era tipo ir pro abate, acho q ia preferir uma atividade mais light naquela hora.

    tambem tenho bloqueio, mas com os livros da jane austen, nao sei, me dao uma impressao de agua com acucar, um tipo de mulherzinha q nao vai passar pela minha garganta, sei la.

    no mais, acho valido ler classicos da literatura mundial. alguns sao tortuosos de se chegar ao fim, mas depois q vc termina, a satisfacao e dupla: geralmente sao bons e pronto, ce ja ta em dia com suas obrigacoes intelectuais.

    • Alex Xavier disse:

      haha Lola, Lola…

      Melhor confessar que ler o resumo e dizer por aí que leu, né?

      E não é que eu nunca leio nada, pelo contrário. Mas a fila de livros para serem lidos só aumenta, viu?

  2. Mônica disse:

    Adoro a ideia da instalação na Bienal. Muito pertinente o título “não toque”…rs. Sinto engrossar o coro, mas eu li Cem Anos…três vezes. E sou daquelas que odeia ler o mesmo livro mais de uma vez, pois isso quer dizer que estou deixando de ler outro naquele momento! rs Vou tentar aprender a conviver com essa, digamos, ausência sua…hahahah

    • Alex Xavier disse:

      Eu sei! Você é das pessoas que nunca me deixarão em paz por causa de Cem Anos de Solidão hehe
      Vamos fazer assim: quando eu me aposentar e tiver tempo de sobra na minha casa de repouso, entre a aula de cerâmica e o bingo, prometo dar mais uma chance ao livro.

  3. Rita disse:

    Ora quéisso, quem leu a coleção vaga lume não precisa de cem anos de solidão… mas… me dá o Ulysses pra eu não ler? he.

  4. lola disse:

    nao li ulysses tambem, mas gostei muito.

  5. Por muitos anos, tive remorso por não ter chegado ao fim de Cem Anos de Solidão, mesmo tendo adorado o livro. Sim, adorei, mas é tão grande que saí da vibe da família Buendía. Um dia decidi que se faltaram só 20 ou 30 páginas, eu ia classificá-lo como lido. A gente tem mania de achar que tem que ler até a última linha da última página, às vezes há um grand finale que faz toda a diferença, mas nem sempre. Tem livro que não é o momento de ler, mas vale dar uma chance depois. Outros, é melhor esquecer e ser feliz com a decisão. Pra mim, Ulysses é um deles, vai pro Sebo na próxima leva.
    bj, Elaine, verdadeseinsanidades.wordpress.com

    • Alex Xavier disse:

      Ufa, não estou só!
      No meu caso, foi falta de identificação com os personagens. Fora a canseira de ir e vir para lembrar do nome de cada um.
      Mas você tem razão. Tem livro que não precisa chegar ao final. Mas se eu estivesse a 20 páginas de terminar Ulysses depois encarar 900, me forçava a ler até a orelha hehe

  6. Alex,
    eu adoro Gabriel Garcia Marquez e já li tres vezes Cem Anos de Solidão por puro deleite. Mas… não suporto Saramago! Eu sou persistente, não gostei desse livro, passo para outro etc, ainda sim Saramago não foi feito para mim, com ou sem Nobel. Debatendo sobre livros e Saramago com uma prof. de Literaura portuguesa, ela me disse algo que passo para você: “nem todos os autores foram feitos para toda a gente”,
    o seu é Gabriel Garcia Marquez, o meu é Saramago, Joyce de muita gente e Guimarães Rosa de outros. Quanto a sua pilha de livros, todo mundo que gosta de livro tem uma seja lido ou não.

    bjs
    Jussara

    • Alex Xavier disse:

      Até que meu bloqueio não é com García Marquez (pois outros textos seus me prenderam), mas om a obra mesmo.
      A professora de Literatura está corretíssima…
      Também imaginei, daqui um tempo quando os tablets se popularizarem para leitura de textos, uma pilha de um aplicativo para iPad chamado “Empilhe Aqui” hehe

  7. Alex, Cem Anos de Solidão também é o meu maior bloqueio. Impossível terminar. Não tem aquela coleção: “Para gostar de ler”. Pois então, este deveria estar na “Impossível acabar de ler”…

    • Alex Xavier disse:

      Verdade, Ju. Mas certa vez li uma matéria sobre os clássicos com que alguns grandes escritores têm bloqueio. Não lembro agora quem eram nem as obras, mas fiquei mais sossegado por ter bloqueio com “Cem Anos de Solidão”

  8. etienne yamamoto disse:

    Querido Alex, pra terminar Cem Anos de Solidão montei a árvore genealógica dos Buendía, Arcadios, Aurelianos. Depois da primeira leitura com pausa para anotacões, as seguintes fluem pois você já sabe quem é quem e em que período da história você se encontra.

    Vale a muito a pena tentar: as cenas são visuais, os personagens são exóticos, besuntados com tintas tropicais selvagens, praticamente um Gauguin.

    Recomendo desapego também: até janeiro deste ano eu tinha todos os livros da faculdade, romances que figuraram nos top 10 das revistas semanais… ou seja, literatura check list: leu, foi-se.

    Se nada disso adiantar, use a força bruta: “não como, não bebo e não durmo enquanto não terminar de ler esse livro.” Funciona também.

    Boa sorte e depois me conta o resultado!

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