Parabéns para mim

Itens 0109 a 114: sacola rasgada, caricaturas, documentação da 92nd Street Y (e uma bronca da direção)

Linha do tempo: por volta de 28 de abril de 1999

Para quem não sabe, hoje completo 35 anos. Não adianta ligar, pois, provavelmente, estou brindando em algum ponto entre Praga e Budapeste. Nunca fui de fazer festa de aniversário, mas já apaguei velinhas o suficiente para me confundir quando me perguntam a idade (e eu achava impossível esquecer quantos anos tenho). De todas as celebrações, uma tem lugar de destaque na minha memória, pois representou todas as boas mudanças pelas quais eu passava: os 24 anos, comemorado de forma improvisada na 92nd Street Y, residência estudantil de Nova York, em 1999.

Tralha da 92nd Street Y

Como um YMCA, o lugar abrigava jovens do mundo inteiro. Eu fiquei uns seis meses, quando fui estudar cinema. São dois edifícios em Upper East Side, perto do museu Guggenheim e do Central Park. Além de vários dormitórios, tem piscinas, quadra de esportes, academia, área de eventos, salas de aula para a comunidade e um teatro badaladinho. A movimentação era intensa, de estudantes estrangeiros a velhinhos norte-americanos da comunidade judaica.

Todo andar tinha banheiro e cozinha comuns. A cada dois pisos, ficava uma lavanderia, com máquinas à moeda. Fiquei hospedado no décimo andar do segundo prédio, só masculino, mas muito freqüentado por mulheres. Conheci ali alguns dos meus melhores amigos gringos. Como o argentino José, o italiano Giorgio e o turco Temmuz. Além das meninas que estavam sempre lá, como a argentina Pia (que depois se casou com Giorgio), a francesa Clementine (que teve um longo romance com Temmuz), a italiana Laura e a espanhola Clara (fui apaixonado por ambas).

Recados colados na minha porta ao longo dos seis meses de residência: boa vizinhança

Tinha também figuras bizarras, como o jovem que usava uma capa preta e uma bengala classuda. Uma vez, o alemão Chris ouviu uma voz feminina pedindo socorro e invadiu o quarto do cara. Era apenas ele transando com a namorada, fantasiado de… vampiro (e nem existia ‘Crepúsculo’!). Outro estranho era o francês que demorava uns quarenta minutos escovando os dentes. Era constrangedor chegar depois dele à pia e terminar as abluções matinais primeiro. Havia ainda um russo cinqüentão que morava lá há trinta anos, desde que fugiu da antiga União Soviética. Ele sempre nos servia a melhor vodca.

Quando cheguei à 92nd Street Y, era madrugada e a primeira pessoa que conheci foi o segurança Bill, um cinqüentão irlandês muito camarada. Graças à minha boa relação com ele, não tinha problema em infiltrar gente que não morava lá, principalmente quando rolavam festinhas. A entrada de estranhos exigia autorização e proibiam bebidas alcoólicas, regras que contrariamos abusivamente. Minha festa de aniversário foi uma das mais alucinadas.

"Evidências suficientes": seriam as toneladas de garrafas no lixo?

Festa de aniversário dos meus 24 anos

Naquela quarta, meus amigos queriam sair para dançar. Mas um temporal nos prendeu em casa e festejamos na grande área da copa e cozinha. Tanta gente dançando e bebendo que às 4h apareceram os seguranças do prédio. Foi preciso esconder nos quartos todos os não-moradores. No dia seguinte, recebemos uma notificação, na qual eles diziam saber que “dois ou mais residentes” estavam consumindo álcool. Dois ou mais!? Com tanta garrafa e latinha nos lixos pela manhã, era óbvio que se tratava de uma algazarra generalizada.

Reunião na copa do 10º andar

De presente, a turma me comprou algumas roupas. Até hoje guardo a sacola do embrulho, cheia de dedicatórias. Pela primeira vez, eu morava no exterior e longe da família. Estava contente por conhecer gente diferente. Era uma oportunidade única de começar do zero, ignorando as impressões que as pessoas que me conheciam há mais tempo tinham de mim e podendo ser um outro Alex neste universo paralelo. Apesar de convivermos por apenas meio ano (fui o primeiro da trupe a partir), a amizade foi intensa. Até hoje mantemos contato. Hospedei-me na casa de vários em outras viagens, fui ao casamento de um em Buenos Aires, visitei o filho de outra em Paris, recebi alguns deles aqui… Agora mesmo, nas minhas férias européias, vou rever muita gente daquela época.

Sacola dos amigos (eu mesmo fiz as caricaturas)

*

Ao entrar na 92nd Street Y pela primeira vez, era quase obrigatório pagar um mico. O meu foi confundir a geladeira com o congelador industrial e transformar meus mantimentos em um imenso bloco de gelo (era impossível separar um item do outro). O mico de Giorgio foi trancar a porta do banheiro comunitário ao tomar banho e deixar para fora os que queriam esvaziar a bexiga. O melhor foi o do José. Ele deixou sua roupa lavando na máquina do andar feminino, logo abaixo do nosso, e foi ler em seu quarto. Quando voltou, suas coisas estavam amontoadas em um canto e duas meninas enfurecidas esfregavam o chão. Ele havia confundido a lavadora com a secadora, que praticamente explodiu com tanto sabão em pó.

Destino: lugar de destaque do Museu Alex Xavier de Histórias Ordinárias

Sobre Alex Xavier

Alex Xavier vive em São Paulo, “está” jornalista e tem medo de se tornar um daqueles velhos que juntam lixo em casa até os vizinhos chamarem a polícia
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2 respostas para Parabéns para mim

  1. Tati disse:

    ok, achou que a gente fosse esquecer, né? Parabéns, Alex! Felicidades pra você! beijo

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