Time de um homem só

Item 0001: uma bola de meia vinho

Linha do tempo: junho de 1982

Minha mãe conta que, quando eu era pequeno, perguntei: “quando vou ganhar um irmãozinho?” Separada do meu pai há muito tempo e sem intenções de se casar de novo, ela respondeu que um filho já estava mais do que bom. “Então me dá um macaco?”, arrisquei. Diante da minha tréplica incontestável, ter um outro moleque não parecia tão ruim.

Acho que, no final, tudo não passava de uma tentativa de ganhar um simples cachorro – dos males, o melhor, sabe? O fato é que meu plano falhou. Mas ainda vejo como reflexo de uma infância um pouco solitária. Não que eu não tivesse amigos – tinha até muitos e também cresci rodeado de primos. Em casa, porém, quase sempre eu tinha de usar a imaginação quando queria fugir do mundo real.

Uma vez me disseram que eu poderia escrever um Guia do Filho Único, ensinando outros garotos a brincarem consigo mesmos sem virar um adulto psicótico. A fase do amiguinho imaginário já havia passado. Então, conscientemente, desenvolvi outras personalidades – os psicólogos infantis fariam um simpósio só sobre minha pequena mente perturbada…

Alguns desses personagens seriam jogadores de futebol. Eram os anos 80 e a garotada ainda brincava de taco nas ruas da Bela Vista. Mesmo assim, eu me enfurnava no meu quarto para realizar elaborados campeonatos. E quem me deu a ferramenta ideal para realizar minha fantasia de Jules Rimet foi meu avô materno.

O vô Raul era um atleta. Com mais de 60 anos, continuava forte e esbelto, um pouco abalado apenas pelo hobby de degustar cachaça de botecos sujos. No passado, havia ganhado medalhas como corredor e jogador de basquete, tudo amador. E acabou se envolvendo com política no interior de São Paulo, passando pela Secretaria de Esportes das várias cidadezinhas nas quais ele e minha avó moraram.

Nunca ligou muito para futebol até vir morar na Capital. Os dois grandes times da cidade na época eram o Corinthians e o Palmeiras. Então ele virou corintiano, pois o Palestra Itália não aceitava jogadores negros no clube. Não perdia um jogo no velho rádio e eu ficava lá ao seu lado. Por conta disso, antes de entender mais sobre futebol e vestir a camisa do São Paulo, tive um período negro no qual torci pelo time do Parque São Jorge.

Um dia, meu avô deve ter visto o neto mais velho muito sozinho num canto. E acessou o conhecimento adquirido em sua própria infância para improvisar o melhor brinquedo que já ganhei. Pegou jornal velho, amassou-o até criar uma bola um pouco maior que uma laranja e passou fita adesiva em volta. Depois, roubou uma meia-calça velha da minha avó e envolveu a pelota nela várias vezes. A ponta que sobrou, o velhinho costurou com preciosismo cirúrgico.

Bola de meia do vô Raul

No livro ‘Brincadeiras de Ontem’, o autor Carlos Alberto Almeida Marques diz que a meia também podia ser enchida de retalhos de pano. “Após a costura, a bola ficava arredondada, nem fofa, nem dura demais”, explica. Exatamente como eu me lembrava da minha, feita de jornal. Como jornalista, posso dizer que me sinto melhor vendo a garotada se divertir chutando meu trabalho do que sabendo que um vira-lata fez suas necessidades nele.

Antes, só havia ganhado bolas de plástico – conhecidas como dente-de-leite. Quando vi como aquele rústico emaranhado de papel e nylon quicava bem, fiquei impressionado. Não precisava de mais nada, nem de outros jogadores. De repente, meu quarto se tornou o estádio. E eu atuava em todas as posições. Dos dois times. Bastava jogar a bola na parede, chutar de novo contra a parede sem deixar pingar no chão e ficar preparado sobre o colchão para fazer a defesa.

Não me lembro muito bem quando ganhei a bola de meia – nem se existiram outras. Só imagino que a brincadeira deve ter começado na primeira Copa do Mundo que acompanhei: Espanha 82. Com a tabela do mundial na mão, eu “previ” todos os jogos com minha bola de meia. Não só os da seleção de Telê Santana, mas até um Argélia x Áustria ou Honduras x Irlanda do Norte. Nem sempre eu era um árbitro imparcial e, claro, fiz de Zico, Falcão e Sócrates campeões. Aos 7 anos, como eu poderia prever a Itália de Paolo Rossi?

Perdi a conta de quantas lâmpadas arrebentei em voleios altos demais – minha mãe talvez tenha a soma anotada. Quando nos mudamos de apartamento, quatro copas mais tarde, o pintor teve um trabalho danado para tirar as marcas circulares na parede. Meu avô faleceu em 1987 e, de vez em quando, chuto sem jeito a bola de meia para debaixo da cama, onde oficializei que seria guardada. Está inteirinha, como se ele tivesse acabado de costurá-la.

Destino: É o precursor do Wii! Claro que fica.

Sobre Alex Xavier

Alex Xavier vive em São Paulo, “está” jornalista e tem medo de se tornar um daqueles velhos que juntam lixo em casa até os vizinhos chamarem a polícia
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13 respostas para Time de um homem só

  1. Adriana disse:

    Alex, eu adoro me desfazer de roupas, objetos, “quinquilharias”… Não tenho o menor apego. Ou vai pro lixo, ou vira doação, na igreja. Se vc precisar de ajuda para esvaziar suas gavetas e armários, é só me chamar! Talvez haja um prazer mórbido em “me livrar” das coisas. Mas….a bola de meia DEVE ser guardada. Seu relato foi comovente. Pena que o “seu” Raul escolheu o time errado.

  2. Genial, Alex!
    Já está no meu ‘favoritos’.
    Parabéns
    Mari

  3. Dadu disse:

    E tinha um detalhe importante: “essa bola de meia… não fazia barulho nos apartamentos de baixo” (comentário da dona Corina).

  4. Jana disse:

    Putz, eu guardo tudo e mais um pouco. Preciso fazer uma limpeza geral em casa, pelos mesmos motivos que você. Vai ser difícil. Embora você não goste de Paralamas, tem uma música deles ótima – ‘eu hoje joguei tanta coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim, caixas e fotografias, gente que foi embora, e a casa fica bem melhor assim.’

    Mas a bola de meia fica. :) Beijos e parabéns pelo blog.

  5. 2die4blog disse:

    Mto bom, Alex!
    Bjs,
    Renata Miranda.

  6. Caliman disse:

    Puta história!!! Chorei… sem zueira. Emocionante. Pena que você não seguiu os passo do nonno e virou “Palmerista”.. hehehe. Bacci mille.

  7. Como pode ter um dia passado pela sua cabeça julgar o destino dessa hand-made ball (upgrade na bolinha retalhada!) Se ela tem que sair daí, vai direto para o Leilão dos Objetos que Ninguém quer Dar nem Ganhar. Que tal?

  8. Juliana disse:

    Alex, quase infartei de rir quando li a sua proposta em “porque não ter um macaco já que não terei um irmão?” Não sei se, além da bola, há um macaco de pelúcia ou um desenho deste que poderia ser seu parceiro de estádio… mas se houver, guarde-o!

  9. Tati disse:

    Genial, adorei! E, claro, a bola de meia vinho não é tão inútil assim. No mínimo, rendeu um lindo texto!

  10. Vanderli Leite Lima disse:

    Amei seu relato!
    Sou professora de ed. física e depois de ler já decidi: amanhã começarei o projeto bola de meia nas escolas que dou aula…vai ser bom voltar as coisas do passado!

    Bjs

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