Item de bolso: um bilhete único*
Linha do tempo: enquanto tiver saldo
* para quem não é paulistano, trata-se do cartão eletrônico usado no transporte público da cidade
Enquanto escrevo, meu primo Dadu está tentando improvisar um escudo de papel alumínio atrás da antena do roteador do wireless. Ele quer melhorar a conexão da internet com este rústico artefato. Mais ou menos como eu fazia, em 1990, para captar a MTV no UHF – para tirar o chiado –, colocando uma palha de aço sobre a antena. Ao associar estes dois momentos, separados por 22 anos, pergunto: qual a distância do nível tecnológico que pensamos ter atingido e onde realmente estamos?
A culpa deve ser do cinema. Eu não me lembro de ter visto nenhuma gambiarra como essa nos filmes de ficção científica que tentavam deslumbrar como nosso cotidiano seria no futuro. Crescemos acreditando em carros voadores, casas administradas por robôs, viagens intergalácticas, vídeos holográficos e… skates flutuantes. A realidade nos frustrou um pouco. Tivemos de nos conformar com este futuro, genérico do nosso ideal. Se o iPad é igual aos cadernos digitais mostrados em ‘2001 – Uma Odisséia n Espaço’, vamos fingir que nos equiparamos ao sonho do passado.
É claro que evoluímos muito tecnologicamente – cada vez mais rápido, dizem. E não sou contra aparatos modernos. Só acho que os adultos de hoje vivem uma ilusão, baseada na ideia do amanhã que construiram na infância. Assim, usamos um monte de tranqueira que não funciona como deveria, mas que se encaixa neste cenário utópico. Somos pedantes demais para aceitar não termos chegado lá ainda e continamos colocando Bombril em um arame.
O bilhete único paulistano é isso. Parece um prático cartão para diferentes meios de transporte público, com desconto na baldeação (a passagem é abusivamente cara, mas faz de conta que não). Pena o sistema falhar com freqüência. Esta semana, tentei carregá-lo nos caixas e em terminais de auto-atendimento, em estações diferentes, e me dei mal. Voltei para o velho bilhete de papel e senti saudade do Metrocard de Nova York. Quando vivi lá, comprava o mensal e entrava e saía do metrô e do ônibus quantas vezes quisesse pelo mesmo preço. Já faz quase duas décadas que aquela maravilha de plástico fino e maleável foi criada e ainda é melhor que a nossa versão.
No condomínio da minha mãe, instalaram na portaria um leitor ótico. Basta você cadastrar seu dedo e, quando for lá, suas impressões digitais abrirão o portão. Mas aquela droga nunca funciona. Agora preciso ficar lá uma eternidade, apontando meu indicador para a máquina, inutilmente, até um segurança aparecer para ver qual o problema. Toda vez este ritual. Por que o ser humano, simplesmente, não admite que ainda não é esperto o bastante para usar uma geringonça dessas?
Esse nosso esnobismo só nos causa mais dor de cabeça. Um amigo da minha namorada mudou-se para um prédio todo computadorizado. Do tipo que você grita “luzes” e elas acendem. Na porta dos apartamentos, nada de maçaneta. Você encosta a mão e o sensor lê. Pensei que isso levaria ladrões a começarem a decepar as pessoas. Mas nem foi necessário. Vários moradores começaram a ser assaltados, pois tudo que os criminosos precisavam era uma folha de papel com a palma do dono da casa. Voltaram para as chaves tradicionais.
Lembro quando eu tinha dez anos e a lembrança de chegar ao ano 2001 era inacreditavelmente inspiradora. Pois o milênio virou e hoje pego ônibus ao lado de um idiota que ouve música ruim no volume máximo no celular – como faria, há trinta anos, com um radinho de pilha. Malditos engenheiros que não desenvolvem algo realmente importante. Eu só quero saber onde está o teletransporte que me prometeram?
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Faltam apenas…
… 3 anos para…
… carros voadores, cadarços automáticos, jaqueta auto-secante, skate flutuador, descompactador de comida e “Tubarão 19” em 3D holográfico (“De Volta para o Futuro 2”, 1989, de Robert Zemeckis).
… 5 anos para…
… as pessoas ficarem ligadas em um reality show brutal no qual presidiários lutam por suas vidas. E isso um ano depois da Olimpíada do Rio (“O Sobrevivente”, 1987, de Paul Michael Glaser).
… 7 anos para…
… animais em extinção clonados, humanos replicados com órgãos pré-fabricados, implantes de memórias e colônias espaciais (“Blade Runner – O Caçador de Andróides”, 1982, de Ridley Scott).
… 9 anos para…
… cérebro sendo usado como pen drive, internet ligada na própria cabeça das pessoas, alergias a ondas cerebrais (“Johnny Mnemonic”, 1995, de Robert Longo).
… 20 anos para…
… airbag de espuma de barba, multas por falar palavrão, sexo sem contato e três misteriosas conchas no lugar do papel higiênico (“O Demolidor”, 1993, de Marco Brambilla).
… 23 anos para…
… popularização de robôs inteligentes como servos, projetores portáteis de hologramas, comando de voz para tudo, carros com capacidade de rotação guiados por computador (“Eu, Robô”, 2004, de Alex Proyas).
… 42 anos para…
… rodovias verticais, cabines de realidade virtual, drogas cibernéticas, aranhas cibernéticas, computador holográfico controlado por movimentos das mãos e banco de dados de gostos de clientes acionados por identificação ocular (“Minority Report”, 2002, de Steven Spielberg)
Destino: onde os absurdos R$ 3 por passagem me levarem.





























