Item a vencer: ingressos para o Pearl Jam
Linha do tempo: hoje
Daqui a pouco, verei o Pearl Jam na segunda noite desta turnê brasileira. Quem me conhece, sabe que não sou de ir a shows. Principalmente, em São Paulo. Abusivamente caros, são realizados em locais péssimos e os frequentes problemas de som demonstram como os organizadores estão se lixando para o público (nem vou falar do quão equivocado é o conceito VIP no Brasil). Além disso, é comum as bandas me decepcionarem ao vivo. E preciso redobrar a paciência com a platéia, que gosta de empurra-empurra e passa tempo demais fazendo vídeos ruins em vez de curtir o espetáculo.
Então, por que diabos comprei ingressos para hoje?!

Ingressos para daqui a pouco
Porque, nos 20 anos que acompanho (de longe) a banda de Eddie Vedder, ela raramente frustrou minhas expectativas. O som deles nunca foi revolucionário nem evoluiu tanto assim. Mesmo nas faixas mais lentas, ainda é rock de garagem tocado com vigor juvenil (apesar dos integrantes serem quarentões). E é isso que faz a banda autêntica. Se eu tivesse nascido nos anos 50, talvez me orgulhasse de ter todos os álbuns do Rolling Stones. Mas foi com o Pearl Jam que passei a adolescência, então é deles que tenho os nove CDs de estúdio (mesmo na era do mp3), além de dois ao vivo e a participação em uma coletânea.

A partir de baixo, da direita para a esquerda, discografia: 'Ten', Vs', 'Vitalogy', 'No Code', Yield', 'Binaural', Riot Act', Pearl Jam', 'Backspacer', a coletânea 'Sem Fronteiras', o ao vivo 'Live on Two Legs' e o show do Pacaembu
Eu tinha 15 anos, já usava camisas de flanela e começava a fazer a barba quando eles ganharam o mundo em 1990. Era revoltadinho e esperava alguém acender meu pavio para explodir com tudo. A identificação não foi à toa. O Nirvana e outras bandas da época acabaram cedo ou ficaram para trás. O PJ seguiu e, apesar de amadurecer, continuei procurando-os como um porto seguro. Com o tempo, sua função para mim mudou. Já serviu de motivador, como companheiro de viagens e para reafirmar amores. Atualmente, aciona minha nostalgia quando preciso dela.
Em 2005, depois de muita espera, pude enfim vê-los no palco. Por causa da reclamação da vizinhança, foi o último show realizado no estádio do Pacaembu (se descontar a visita do Papa, dois anos depois, que foi um tipo de show, mas a associação do bairro não chiou). No meio da polêmica com Prefeitura e moradores, o grupo topou tocar mais cedo, ainda com luz do Sol. Nenhuma pirotecnia ou iluminação especial. Apenas cinco caras fazendo barulho do bom. Bastou. Fui à segunda apresentação, em 3 de dezembro, e considero a minha melhor experiência com banda ao vivo (tenho a gravação do show, baixada no site da própria banda por uma mixaria, uma esperta visão de marketing).
Por isso, a expectativa para a noite de hoje é alta. Mas sem tietagem. Nunca usei camiseta com a capa de ‘Ten’ ou pendurei cartaz do quinteto na parede. Nem mesmo sou fã de todas as músicas incondicionalmente e acho o Vedder meio mala às vezes. Para filósofos modernos como o francês René Descartes (1596-1650) e o inglês Francis Bacon (1561-1626), idolatrar alguém ou algo nos impede de enxergar a verdade. Ou seja, ídolos são uma ilusão escapista. Mesmo sem entender nada de Filosofia, tento fugir do culto acrítico. Em outras palavras, sou chato e curto apontar defeitos até em quem admiro.
Poucos e bons
Fui a muito show meia-boca, de gente que esperava muito. Mas alguns valeram muito a pena (embora não tenham valido o preço da entrada, que sempre acharei um roubo).

Ingressos: custo-benefício discutível
Olhar distante
Como o Pearl Jam, também tenho todos os CDs de estúdio do Radiohead. E estava aguardando bastante para vê-los ao vivo. Em 2009, a turnê de In Rainbow foi bem além do que esperava. Nem precisei chegar muito perto. Era um espetáculo para ser visto de mais longe mesmo. Melhor foi ir de van fretada com amigos (farei o mesmo hoje à noite) e não ter que me preocupar com estacionamento, roubos e trânsito.
Às escuras
Eu não fazia ideia do que era Yo la Tengo quando acompanhei colegas da Veja São Paulo à apresentação no Sesc Pompéia, em 2001. Para minha surpresa, fiquei bastante empolgado com o trio, mesmo sem conhecer nenhuma música. E olha que foi no teatro, uma arena estranha que considero péssima para shows (que me perdoe Lina Bo Bardi). Como os músicos ficavam de lado para a platéia, eles procuravam se movimentar bastante e isso foi bastante positivo para os improvisos nos agitados solos de guitarra.
Foco no segundo plano
Em outubro de 2005, fui ao Tim Festival para ver Strokes e Kings of Leon. Além do som baixo, achei as performances das duas bandas sofríveis, com os caras de Nashville sem carisma e Julian Casablancas gripado, cantando no sacrifício. Mas a noite foi paga mesmo por uma atração que eu desconhecia, os canadenses do Arcade Fire. Fiquei surpreso com o som daquela trupe estranha que trocava de instrumento no meio da canção. Fui correndo procurar o álbum ‘Funeral’.
O guarda-costas
O Claro que é Rock, em novembro de 2005, alternava apresentações em dois palcos de frente um para o outro. Para mim, facilitou muito a circulação e deu para curtir atrações como Sonic Youth e Flaming Lips sem ser esmagado. Mas claro que sempre tem os mais eufóricos que passam por cima de todos para ir à beira do palco receber as primeira gotas de suor da testa do ídolo. No vibrante reencontro de Iggy Pop com os Stooges, me senti vingado. Parei onde podia ver os músicos com conforto. A molecada, porém, insistia em trombar comigo para chegar lá na frente. Até que ouvi o sujeito ao meu lado reclamando disso. Imagine o Arnold Schwarzenegger na época do primeiro ‘O Exterminador do Futuro’ (‘The Terminator’, 1984, de James Cameron). Era igual. Pois quando o próximo infeliz passou me empurrando, joguei-o com o ombro para cima do grandalhão. Este o segurou pelo pescoço, deu uma baita bronca e o mandou voltar para os fundos. Enquanto todos olhavam para o garoto saindo com o rabo entre as pernas, eu sorria maquiavelicamente, satisfeito comigo mesmo.
Sozinho na multidão
Odeio lugar com muita gente. É quase uma fobia. Mas um única vez fiquei bem estando cercado de milhares de pessoas. Para ser exato, 1,5 milhão, segundo a imprensa da época. Em fevereiro de 2006, passei um ótimo fim de semana no Rio de Janeiro e ainda vi Mick Jagger, Keith Richards e companhia de graça na praia de Copacabana. Nenhuma confusão, nenhum estresse, nenhum empurrão, um monte de gringo misturado com brasileiro, clima ótimo. Só me dei mal ao largar meu grupo para usar um banheiro químico no calçadão. Na volta, não encontrei ninguém. Ouvi as primeiras músicas sozinho até que eles me acharam.
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Campo de jogo
Hoje será a segunda vez que entrarei no campo do Morumbi. Isso é digno de nota, pois sou sãopaulino. E, por mais que o time vá mal das pernas e eu esteja saturado da politicagem no futebol, mexe comigo ver o estádio por outro ângulo. A primeira vez foi em 1997, no último ano de faculdade. Às vésperas das finais do Campeonato Paulista, meu grupo foi incumbido de cobrir os treinos de São Paulo e Corinthians para a rádio da faculdade. E os dois times resolveram dificultar nossa vida treinando fora de seus centros de treinamento. A equipe do Parque São Jorge foi para Cotia e uma colega e eu precisamos invadir o hotel fazenda onde estavam para correr atrás dos jogadores no saguão. Já o Tricolor optou por bater bola no próprio local de jogo. Com um amigo, fui ao Morumbi apostando nas credenciais de imprensa para passar pela segurança. Na verdade, era uma ridícula carteirinha do nosso curso, na qual o diretor implorava para as pessoas serem compreensivas com os alunos de Jornalismo. Exibindo-a rapidamente, passamos por todos até entrar no campo. Pelo menos, em volta dele. A gente queria mesmo era pisar no gramado, mas os fotógrafos e jornalistas ficavam só ao redor. Foi a presença de umas fãs adolescentes do atacante Dodô que nos deu a ideia. Elas carregavam uma daquelas cartas gigantes para entregar ao ídolo e sugerimos que a desenrolassem sobre a grama para tirarmos foto. Assim, pisei no círculo central.
Destino: já era. Fui!
ATUALIZAÇÃO EM 05/11/2011: das 29 canções do show de ontem, só 9 coincidiram com as que ouvi no show de 2005. Vale a pena seguir uma banda com um repertório tão grande.